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E se a Piazza de Michelangelo, em Florença, passar a ser reconhecida como o local onde o Professor e Berlim têm um dos mais marcantes encontros, na série Casa de Papel?

É com base na pergunta que fazemos uma reflexão sobre a forma como os comportamentos de viagem são, cada vez mais, influenciados pelos conteúdos que assistimos nas plataformas de streaming.

A forma como viajamos é cada vez mais diferente, não só pelos impactos que a pandemia de COVID-19, mas sobretudo pelo aparecimento de novos perfis de viajante que valorizam outros aspetos, e elementos cada vez mais específicos.

Atualmente, é impensável categorizar os turistas que recebemos numa categoria tão ampla como “turista de natureza” ou “turista de cultura”, pois dentro de cada uma destas, o viajante pode assumir diferentes comportamentos ou, inclusive, adotar uma atitude de viagem que mescla ambos os interesses.

Se é certo que o turista de hoje é bastante diferente daquele que tínhamos há 10 anos (ou mesmo em 2019), também se pode afirmar que os conteúdos que todos nós consumimos (sobretudo na televisão e no cinema) têm um impacto enorme na decisão do seu futuro destino de viagem.

 

Para vos dar um exemplo, gostaríamos de vos deixar uma história real.

Pode um simples banco de rua, numa área não central de uma cidade, tornar-se uma atração turística?

A resposta é sim, se este banco de rua tiver um enquadramento histórico, ou, por exemplo, um papel importante num determinado livro, filme ou série.

Um destes exemplos, é um banco, situado numa das ruas menos movimentadas do centro da cidade de Amesterdão, onde as personagens principais do filme “A Culpa é das Estrelas” protagonizam um dos momentos mais românticos de toda a história.

Este filme foi um dos maiores blockbusters de 2014, e como resultado, vários turistas passaram a incluir a visita a este “banco de rua” nos seus planos de viagem na cidade neerlandesa.

Desde 2014, este banco desapareceu já várias vezes, levando à sua rápida substituição, para que esta atração se mantenha presente.

 

Mas se no início dos anos 2010 a televisão e o cinema eram as principais plataformas onde podíamos viajar “sem sair de casa”, hoje a história (ou a forma como acedemos à história) é bastante diferente.

As plataformas de streaming – e sobretudo a Netflix – revolucionaram a forma como assistimos a conteúdos audiovisuais. Se por um lado temos agora a possibilidade de ver um conteúdo as vezes que quisermos, quando quisermos, e a partir de qualquer local, por outro temos também o acesso a um vastíssimo leque de conteúdos dos mais diversificados países (algo que há 10 anos seria complicado ter).

Como consequência deste mais amplo acesso, também o conhecimento sobre outros países, as suas culturas e as suas paisagens é maior, o que faz com que o utilizador vá ganhando novos interesses e deseje visitar destinos mais diversificados, na ânsia de poder – também – viver alguma da experiência/história que determinada personagem de uma série ou filme “viveram”.

Um estudo recentemente publicado pela Organização Mundial do Turismo, desenvolvido em parceria com a Netflix, denominado “Cultural Affinity and Screen Tourism – The Case of Internet Entertainment Services” reúne um conjunto de conclusões muito importantes para compreendermos este fenómeno, e poder trabalhar as inúmeras oportunidades que aqui existem. Enumeramos apenas algumas das principais:

  • O público Netflix que assiste a conteúdos de outros países tem uma maior propensão de viajar para esses, do que aqueles que não assistem. Por exemplo, o público alemão que assiste a conteúdo japonês na Netflix tem 2 vezes maior interesse em visitar o país, do que aqueles que não assistiram a conteúdos.
  • O público Netflix tem maior interesse em descobrir áreas menos turísticas dos destinos, quando estas fazem parte das cenas de uma série ou filmes
  • O público que já visitou um destino e assiste a uma série ou filme gravado nesse país, tem maior interesse em voltar a viajar. Este estudo revela que se considerarmos as pessoas que já visitaram Espanha, o público Netflix apresenta maior desejo em voltar ao país (93%) quando expostos a conteúdo em espanhol, do que os públicos não expostos (86%).
  • O público Netflix é mais propenso a “consumir” cultura e gastronomia e a querer descobrir a história e as paisagens dos países que vê representados em séries/filmes. Um desses exemplos é apresentando quando o relatório refere que 62% dos utilizadores Netflix indicam querer experimentar a gastronomia turca. Nos não utilizadores, a taxa de interesse é de 48%.

É possível, então, encontrar nestes resultados uma enorme oportunidade que os destinos podem explorar. Verdade seja dita, os Estados Unidos já o fazem – e bem – há muitos anos, pois mesmo sem nunca termos visitado – por exemplo – Nova Iorque conseguimos reconhecer os seus principais pontos de interesse.

Nesta fase em que o acesso aos conteúdos está – cada vez mais facilitado – trabalhar o, cientificamente denominado, “turismo cinematográfico” poderá ser uma enorme oportunidade para dar maior visibilidade aos destinos, à sua cultura, natureza ou história.

Portugal tem já a 5 de novembro o seu primeiro “teste”. “Glória”, a primeira série portuguesa da Netflix, gravada na região do Ribatejo e em Lisboa, poderá ser o primeiro passo para que mais séries portuguesas possam integrar a plataforma de streaming, a curto/médio-prazo.

Terminamos este artigo como o iniciamos. Deixamos abaixo, algumas “provocações” que, talvez, os utilizadores de Netflix reconheçam.

  • E se Ssangmun-dong for, para sempre, o bairro de Gi-hun (o 456)? (Squid Game)
  • E se a Casa da Moeda espanhola for, para sempre, o sítio do maior assalto da história? (Casa de Papel)
  • E se o Palácio de Christiansborg for, para sempre, a “casa” de Birgitte Nyborg? (Borgen)
  • E se as Craig Na Duhn forem, para sempre, o local a que Claire Randall recorre para viajar no tempo e encontrar-se com Jamie Fraser? (Outlander)
  • E se a Casa Branca for, para sempre, a casa de Frank Underwood? (House of Cards)
  • E se Hawking, no Indiana, for, para sempre, a residência de “Eleven”, Michael, Dustin e Will? (Stranger Things)
  • Ou, recuando um pouco mais no tempo, se Notting Hill for, para sempre, o palco da história de amor William e Anna? (Notting Hill)

 

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