Num contexto internacional marcado por uma crescente instabilidade geopolítica, o setor do turismo continua a ajustar-se a um enquadramento em rápida transformação.
Se, numa fase inicial, as mudanças se fizeram sentir sobretudo ao nível da conectividade — com restrições no espaço aéreo, cancelamentos e desvios de rotas —, o aumento do preço dos combustíveis surge agora como fator com expressão evidente e com potencial para produzir efeitos mais amplos e duradouros.
A escalada do conflito no Médio Oriente tem vindo a pressionar os mercados energéticos, contribuindo para a subida dos preços do petróleo e do combustível de aviação. Ao mesmo tempo, as perturbações no tráfego aéreo estão a tornar as operações mais longas e dispendiosas, com efeitos diretos nos custos das companhias.
Mais do que uma consequência imediata dos acontecimentos no Médio Oriente, esta pressão sobre os custos energéticos introduz uma nova dimensão no funcionamento do setor. Ao contrário das limitações operacionais, que tendem a ser temporárias, o impacto dos preços dos combustíveis prolonga-se no tempo. Este conjunto de fatores traduz-se numa pressão concreta sobre o custo das viagens e, inevitavelmente, nas decisões dos viajantes.
Os dados mais recentes do Barómetro do Turismo #76 confirmam esta leitura. Para 64% dos membros inquiridos, o aumento dos combustíveis surge já como um fator relevante de pressão, com impacto potencial no desempenho turístico já no período da Páscoa.
Como se adapta o comportamento do consumidor?
Perante este contexto, a questão central não é tanto se as pessoas vão deixar de viajar, mas como vão adaptar as suas escolhas.
O Barómetro identifica tendências claras: maior preferência por destinos próximos, estadias mais curtas e uma menor frequência de viagens ao longo do ano. Essencialmente, a procura não vai desaparecer, mas pode sofrer transformações consideráveis.
Viajar continua a ser valorizado, mas passa a ser mais ponderado e condicionado pelo orçamento disponível. O aumento dos custos de transporte leva os consumidores a reavaliar opções, traduzindo-se numa mudança gradual no comportamento da procura: mais sensível ao preço, mais seletiva e mais orientada para o valor.
Mas a influência do aumento dos combustíveis tornar-se-á mais evidente, especialmente a longo prazo, quando enquadrado num contexto económico mais amplo.
Para muitas famílias, o aumento dos custos de mobilidade soma-se à subida generalizada do custo de vida e à incerteza económica. Este efeito cumulativo reduz o rendimento disponível e torna a decisão de viajar mais exigente.
Neste cenário, o turismo deixa de ser apenas uma escolha aspiracional e passa a ser também uma decisão financeira mais estruturada. Os viajantes continuam a valorizar a experiência, mas tornam-se mais atentos ao custo total da viagem e mais exigentes na forma como distribuem o seu orçamento.
Esta mudança, embora subtil, tem implicações relevantes para todo o setor, influenciando desde o posicionamento dos destinos até à forma como a oferta é desenhada e comunicada.
Como aponta o Barómetro do Turismo #76, isto poderá sentir-se particularmente em Portugal, pela grande dependência de deslocações rodoviárias e maior sensibilidade ao aumento do custo de vida.
Assim, os resultados do Barómetro preveem um impacto, ainda que equilibrado, mais significativo e imediato no turismo interno: 55% consideram que o impacto será mais significativo neste mercado, enquanto 45% antecipam efeitos mais acentuados no turismo internacional.
No turismo internacional, as consequências tendem a ser mais graduais. O custo do combustível está diluído no preço global da viagem, mas começa progressivamente a refletir-se nas tarifas aéreas, seja através do aumento dos preços base, da introdução de sobretaxas ou de ajustes operacionais por parte das companhias, que procuram compensar a subida dos custos energéticos — uma tendência já identificada por análises recentes do setor, conforme destacado pelo The Independent.
A este fator soma-se a reorganização das rotas aéreas, que, ao tornar as viagens mais longas e complexas, contribui para o aumento dos custos. Este efeito pode não ser imediato para o consumidor, mas tende a consolidar-se ao longo do tempo.
O que está em causa para as empresas e destinos turísticos?
Para as empresas do setor do turismo, o aumento dos custos energéticos revela-se um desafio operacional e estratégico. Custos mais elevados de transporte, logística e operação pressionam margens e exigem maior capacidade de adaptação. Em resposta, muitas empresas tendem a rever estratégias de pricing, ajustar a oferta e procurar ganhos de eficiência.
Este contexto pode também acelerar tendências já em curso, como a valorização de experiências de proximidade, a diversificação de mercados e a aposta em soluções mais eficientes do ponto de vista energético. Num cenário de custos elevados, a competitividade deixa de depender apenas da atratividade do destino e passa a estar também ligada à capacidade de gerir custos e comunicar valor.
Mas o aumento dos custos de viagem vai também influenciar a competitividade relativa dos destinos. Nessa perspetiva, fatores como acessibilidade, proximidade e custo total da experiência ganham maior peso na decisão – destinos que consigam posicionar-se como mais acessíveis, não apenas em termos de preço, mas também de facilidade de acesso, poderão beneficiar deste contexto.
Por outro lado, destinos mais dependentes de longas distâncias ou de transporte aéreo mais caro poderão enfrentar maiores desafios. Neste enquadramento, a forma como os destinos comunicam valor, estruturam a sua oferta e se posicionam nos mercados internacionais torna-se ainda mais relevante.
Um impacto que dura mais do que o próprio conflito
Um dos aspetos mais relevantes deste cenário é a sua possível duração. As limitações operacionais associadas ao contexto geopolítico tendem a ser temporárias e a normalizar com relativa rapidez, mas o impacto nos preços dos combustíveis pode prolongar-se muito para além do fim do conflito, refletindo-se de forma contínua nos custos de mobilidade e na economia global.
Esta diferença é determinante. Enquanto algumas disrupções afetam sobretudo a forma como se viaja, o aumento dos custos energéticos influencia diretamente a decisão de viajar — e fá-lo de forma prolongada.
Para o setor, isto significa operar num contexto em que o custo de viajar se mantém elevado e onde o comportamento da procura se ajusta de forma mais estrutural.
Num cenário em que os efeitos económicos tendem a prolongar-se para além do próprio conflito, o custo de viajar assume um papel cada vez mais central. E é precisamente essa dimensão, mais estrutural e persistente, que poderá ter maior influência no setor a médio prazo.
Perante este enquadramento, o desafio não passa apenas por responder ao presente, mas por antecipar um novo equilíbrio, onde o turismo continua a afirmar-se como uma atividade essencial, mas onde as condições para viajar e as escolhas que daí resultam serão cada vez mais determinadas pelo contexto económico global.
Ao mesmo tempo, importa não perder de vista uma dimensão menos visível. O turismo vive da mobilidade, mas sobretudo das pessoas, das ligações que se estabelecem entre lugares e culturas. Em contextos de instabilidade, essa ligação é inevitavelmente afetada, com impactos que vão além dos indicadores económicos e que se refletem na forma como o mundo se relaciona e se move.
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