Skip to main content

No entanto, o turismo é muito mais do que uma atividade de lazer. É uma expressão da curiosidade humana, do desejo de conhecer o outro e de atravessar fronteiras geográficas e culturais. Essa curiosidade move milhões de pessoas anualmente, tornando o turismo num dos setores mais relevantes da economia global.

Em anos pré-pandemia, o setor de viagens e turismo representou cerca de 10% do Produto Interno Bruto mundial e sustentou milhões de empregos diretos e indiretos, segundo estimativas do World Travel & Tourism Council (WTTC). Hotéis, restaurantes, transportes, comércio local e atividades culturais dependem diretamente da circulação de viajantes.

Pela sua natureza global, o setor reage rapidamente a mudanças no contexto internacional. Conflitos armados, tensões geopolíticas ou crises económicas alteram os fluxos de viagem e a perceção de segurança dos destinos.

O mais recente conflito no Médio Oriente voltou a evidenciar essa ligação entre geopolítica e mobilidade global. De acordo com estimativas recentes do WTTC, divulgadas em março de 2026, o conflito poderá estar a custar cerca de 600 milhões de dólares por dia ao setor de viagens e turismo associado ao Médio Oriente, sobretudo devido ao cancelamento de viagens, à redução das reservas e às perturbações nas ligações aéreas. Logo nos primeiros dias da crise, várias companhias aéreas anunciaram cancelamentos de voos e alterações de rotas para evitar o espaço aéreo de zonas consideradas de risco. Alguns aeroportos enfrentaram restrições operacionais e milhares de passageiros foram afetados por atrasos e cancelamentos.

Para além das dificuldades logísticas, a perceção de risco influencia diretamente as escolhas de viagem. Mesmo destinos que não participam num conflito podem sofrer quebras na procura quando estão associados à região ou quando se encontram geograficamente próximos.

A guerra na Ucrânia demonstrou esse efeito de forma clara. Enquanto grande parte da Europa recuperou rapidamente o turismo após a pandemia, vários países próximos da Rússia registaram recuperações mais lentas devido às preocupações de segurança. Relatórios da European Travel Commission (ETC) indicam que, em 2023, mercados como Lituânia, Letónia, Estónia e Finlândia permaneciam significativamente abaixo dos níveis de chegadas internacionais de 2019, ao passo que, no mesmo período, vários destinos do sul da Europa já ultrapassavam os valores pré-pandemia. Países como Portugal, Montenegro, Turquia e Malta registaram crescimentos nas chegadas internacionais face a 2019, ilustrando como os fluxos turísticos se reorganizam rapidamente quando a perceção de segurança muda.

O Médio Oriente ocupa também uma posição central na aviação internacional. Nas últimas duas décadas, vários países do Golfo investiram fortemente em aeroportos, companhias aéreas e infraestruturas turísticas. Cidades como Dubai, Doha e Abu Dhabi afirmaram-se como importantes hubs de ligação entre continentes e, cada vez mais, como destinos turísticos por direito próprio. De acordo com análises do WTTC, a região representa uma parcela significativa do tráfego internacional de ligação aérea, o que explica por que motivo perturbações regionais podem ter repercussões globais.

Qualquer alteração no espaço aéreo ou nas rotas internacionais tem impacto imediato na mobilidade global. As companhias aéreas são obrigadas a redesenhar percursos, aumentar tempos de viagem e enfrentar custos operacionais mais elevados. Estes fatores refletem-se nos preços das viagens, na disponibilidade de voos e nas decisões dos turistas.

O impacto torna-se ainda mais evidente quando se observa a evolução recente do turismo na região. Nos últimos anos, o Médio Oriente registou um crescimento significativo no setor das viagens, impulsionado por investimentos em hotelaria, eventos internacionais e grandes projetos culturais. Dubai e Abu Dhabi deixaram de ser apenas pontos de passagem e consolidaram-se como destinos internacionais de grande visibilidade. A aposta em museus, exposições e grandes eventos contribuiu para reforçar a atratividade da região e para diversificar economias tradicionalmente dependentes do setor energético.

A atual instabilidade está agora a colocar esse crescimento sob pressão e, mesmo em cenários mais favoráveis, em que o conflito não se prolongue por muito tempo, o impacto económico tenderá a ser significativo. A experiência de crises anteriores mostra que a recuperação do turismo depende sobretudo da rapidez com que a confiança dos viajantes é restabelecida.

O que significa isto para a Europa – e para Portugal?

Os períodos de tensão internacional tendem a provocar uma redistribuição dos fluxos turísticos, à medida que os viajantes procuram destinos que ofereçam segurança, estabilidade política, acessibilidade e uma oferta diversificada. Em diferentes contextos de crise noutras regiões do mundo, a Europa tem surgido frequentemente como alternativa. Em particular, os países do sul da Europa têm beneficiado, em vários momentos, desta procura redirecionada.

Destinos como Espanha, Itália ou Grécia têm historicamente captado turistas em momentos de instabilidade noutras regiões, combinando clima mediterrânico, oferta cultural e infraestrutura turística consolidada. Os primeiros sinais recolhidos por operadores, de acordo com a notícia do ECO (2026), sugerem que o atual conflito no Médio Oriente poderá, novamente, reforçar o interesse por destinos europeus, ainda que seja cedo para afirmar em que medida esta tendência se consolidará a médio prazo.

Portugal tem integrado esta dinâmica. Nas últimas duas décadas, o país consolidou a sua posição como destino turístico internacional, graças à diversidade de paisagens, ao património histórico e cultural e à gastronomia, que contribuíram para reforçar a visibilidade externa do país. Lisboa e Porto afirmaram-se como destinos urbanos de referência, o Algarve mantém-se como um dos principais destinos balneares da Europa e regiões como o Douro, o Alentejo, os Açores e a Madeira ganharam igualmente projeção internacional.

Num contexto internacional marcado por incerteza, a segurança assume um peso crescente nas decisões de viagem. Portugal tem ocupado, ao longo dos últimos anos, lugares cimeiros no Global Peace Index, publicado pelo Institute for Economics & Peace, reforçando a sua reputação como um dos países mais seguros do mundo. Em períodos de instabilidade internacional, essa perceção de segurança pode tornar-se um fator relevante na redistribuição dos fluxos turísticos, em combinação com outros elementos como conectividade aérea, capacidade instalada e políticas públicas de turismo.

Nota final

O turismo é talvez o setor que melhor nos lembra que o mundo não se divide entre realidades isoladas. A mobilidade internacional depende da estabilidade entre regiões e da confiança entre sociedades. Mesmo conflitos que parecem distantes daquilo a que muitas vezes chamamos “realidade ocidental” acabam por alterar rotas aéreas, fluxos de viagem e decisões económicas em vários continentes. E as suas consequências humanas são profundas: vidas que se perdem, cidades marcadas pela destruição e património cultural que desaparece, levando consigo parte da memória coletiva das sociedades.

Como podemos ajudar?

Se procura de soluções inovadoras no setor do Turismo, desde desenvolver e promover o seu destino ou negócio privado, o IPDT oferece serviços especializados em Gestão de Processos de Sustentabilidade, Consultoria Estratégica, Marketing e Comunicação, Estudos e Monitorização e Classificação de Património. Estamos prontos para o ajudar a alcançar sucesso.

O IPDT é membro Afiliado da UN Tourism

Contactos diretos

T. +351 226 097 060*
M. +351 916 646 397**
E. ipdt@ipdt.pt

IPDT - TOURISM INTELLIGENCE
Política de Privacidade

A sua privacidade é importante para nós. A Política de Privacidade do IPDT explica como recolhemos, utilizamos e protegemos as suas informações pessoais quando utiliza o nosso website.
Mais informações sobre a Política de Privacidade do IPDT aqui