Em 2022, quando a FIFA revelou as 16 cidades-sede do Mundial de 2026, o discurso de Gianni Infantino ficou marcado por um tom grandioso. O presidente da federação prometeu uma “grande onda de alegria e felicidade” a atravessar o Canadá, o México e os Estados Unidos da América, uma multidão global a invadir estádios, bares e praças.
Os dados do Relatório de Impacto Socioeconómico da FIFA apontam para a presença de 6,5 milhões de adeptos, estimando-se que cerca de 40% dos lugares nos estádios sejam ocupados por turistas estrangeiros e que o impacto económico atinja os 40,9 mil milhões de dólares no PIB dos Estados Unidos.
Perante este enquadramento estatístico, a reação do setor hoteleiro foi previsível. Várias unidades hoteleiras fixadas nas cidades-sede ajustaram os seus preços com base numa lógica de procura extraordinária antecipada. Uma análise do The Athletic, jornal desportivo pertencente ao The New York Times, radiografou 96 hotéis sediados nos 16 mercados anfitriões. Em dezembro de 2025, logo após o sorteio e a divulgação do calendário, os preços para a semana de abertura do evento (junho de 2026) estavam, em média, 328% mais caros do que os valores praticados no final de maio de 2025.
Contudo, a dois meses do pontapé de saída, as reservas hoteleiras contam uma história diferente: reservas provisórias em retardamento, procura aquém do esperado e gestores hoteleiros corrigem preços. Nos mesmos 96 hotéis analisados, os preços caíram mais de 40%, face ao pico de dezembro.
Também a venda de bilhética desenha um diagnóstico diferente do esperado. O comité organizador de Dallas reporta que apenas 26 a 35% dos ingressos estão a ser comprados por estrangeiros, número muito aquém da projeção apresentada.
Este ano, a FIFA optou por introduzir um sistema de preços dinâmicos para os bilhetes, abandonando o modelo fixo e procedendo, inclusive, a novos aumentos. Esta decisão acrescenta um elemento de incerteza para o consumidor, num contexto já marcado por custos crescentes. Em dias de jogo, as autoridades de transporte público já anunciaram o agravamento das tarifas, enquanto a própria FIFA tabelou preços para o estacionamento nas imediações do estádio. Soma-se, ainda, a chamada “taxa de integridade de visto”, no valor de 250 dólares, aplicada a vistos de turismo e de negócios não imigrantes. (Euronews).
De acordo com a Euronews, enquanto o mundo registou em 2025 um crescimento médio de 4% no turismo, os Estados Unidos contrariaram a tendência, com uma queda de 5,4%. O Mundial surgia, assim, como uma oportunidade clara de recuperação, mas, até agora, os sinais continuam pouco expressivos.
Parte da explicação poderá estar fora da esfera económica. Nos últimos meses, propostas imprevisíveis de política interna e externa, desde os incidentes com os agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) até à possibilidade de anexação da Gronelândia, contribuíram para um clima de incerteza. A isto juntam-se as restrições de entrada impostas a dezenas de países, incluindo quatro seleções qualificadas para o torneio: Irão, Senegal, Costa do Marfim e Haiti.
A verdade é que a FIFA promove um Mundial de celebração global e inclusão, mas o país anfitrião impõe barreiras a parte dos seus próprios protagonistas e adeptos. A proposta da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) prevê a obrigatoriedade de divulgação do histórico de redes sociais dos últimos cinco anos no processo de pedido do ESTA, mais um fator adicional de dissuasão.
Simultaneamente, as tensões geopolíticas no Médio Oriente pressionam rotas aéreas e custos operacionais, enquanto a inflação continua a encarecer combustíveis e viagens. Segundo a Forbes, as reservas de voos da Europa para os EUA já caíram mais de 14% face ao verão anterior.
Ainda assim, o Mundial tem uma particularidade que o distingue de qualquer outro megaevento, a imprevisibilidade emocional. Ninguém reserva um hotel em Kansas, em abril, para assistir a uma final que só saberá que existe em junho. Muitos adeptos esperam que a sua seleção resista aos oitavos, quartos e meias-finais.
À medida que a competição avança, uma qualificação inesperada para os quartos de final ou uma meia-final pode desencadear uma onda tardia de reservas. Seleções como Portugal ou Brasil, com uma forte base de adeptos e diásporas significativas nos EUA, têm potencial para gerar esse efeito. A possível “última dança” de Cristiano Ronaldo é, por si só, um fator mobilizador.
É precisamente neste ponto que se torna evidente que a atratividade de um destino não se esgota na escala do evento que acolhe, dependendo, de forma decisiva, da sua perceção no contexto internacional. A evidência acumulada ao longo dos últimos meses reforça esta leitura. Níveis de custo elevados, fricções administrativas e um enquadramento político incerto não anulam necessariamente a procura, mas tendem a reconfigurá-la, tornando-a mais sensível, mais tardia e significativamente menos previsível.
Nenhuma campanha promocional, nenhum evento de escala global, consegue compensar a perceção de um destino como difícil, caro ou hostil. E, nesse equilíbrio delicado, o Mundial de 2026 pode revelar-se um teste à atratividade estrutural dos Estados Unidos enquanto destino turístico.



